REFAZENDO A FAZENDA


De minha meninice, gratas recordações, muitas oriundas da fazenda Santana da Cachoeira, à época pertencente ao meu avô. Nasci em julho de 1943. Aos seis meses, no topo da escada de pedra que conduzia à porta principal da sede, sentado numa almofada, posei para uma fotografia. Minha mãe Marina e Elvira Áurea, minha irmã, então com três anos e meio, aparecem parcialmente no vão da porta, flagradas num momento de curiosidade. Há um outro retrato, de 1945, no qual eu, minha prima Agda, a mana Elvira Áurea, o primo Chiquinho (irmão de Agda) e uma menininha não identificada, pés dentro d`água, estamos sentados numa das margens do riacho que passava (passará ainda?) nos fundos da sede. Lembro-me bem do fascínio que me causava ver pequenos peixes e girinos a movimentarem-se na massa líquida do ribeirão.
    Infelizmente, naquele tempo, os registros fotográficos eram escassos. Além dessas duas, guardo comigo apenas mais uma foto tirada na Santana da Cachoeira, também de 1945. Nela, todo pimpão, apareço encarapitado no lombo de um zebu sob a vigilância de José, meu pai. Os demais registros daquele tempo em que freqüentei a fazenda de meu avô, fotografei-os com a retina e os arquivei nos recônditos da memória.
    Lembro-me do pomar defronte à entrada da fazenda, das jabuticabeiras com seus frutinhos colados no tronco e nos galhos, das goiabeiras, origem de gostosas tachadas de goiabada cascão.
    À direita, na estradinha de barro batido que conduzia à sede da propriedade, o canavial. Dele, saíam ração para o gado e insumo para a garapa, o melado, a rapadura.     Na entrada principal, destacava-se a escada, com seus degraus de pedra maciça por meio dos quais se chegava a um patamar e à porta da sala, altíssima, indicativa do avantajado pé-direito, característico de antigas construções.
     Todos os cômodos situavam-se na parte superior da casa. Na inferior, o porão com sua penumbra, seu ar abafado, seus mistérios... Nessa parte baixa, apenas um cômodo claro e arejado: uma espécie de garagem na lateral direita da construção, abrigo para o carro de boi, a moenda, os arreios, as rédeas, os freios, os baixeiros, as ferramentas...
    Nos fundos, por onde corria o curso d`água, uma escada de madeira, estreita, íngreme, rangedora, a desafiar velhos e crianças. Uns, temerosos. Outros, arteiros.
    Um pouco à direita da sede, nos fundos dela, o curral com seus mugidos, seu cheiro de terra, urina e bosta. Manhãzinha e quase ao crepúsculo, após as mamadas dos bezerros, os retireiros em seus banquinhos, mãos calosas, faziam esguichar o leite de úberes intumescidos para o interior dos baldes.
    Nos fundos do curral, o tanque utilizado para banhar o gado. Aberta uma porteira, surgia um corredor que levava a uma rampa de cimento íngreme e lisa. Ao atingi-la, bois, vacas, garrotes e novilhas, desequilibrando-se, projetavam-se espalhafatosamente em direção ao tanque no qual havia uma mistura de água e creolina. Sacudindo-se todo, o gado saía em direção ao pasto, livre do incômodo dos carrapatos.
    Recordo-me também do paiol, pegado à cerca, próximo à porteira da entrada do curral, destinado à guarda de espigas de milho e sacos de farelo. Externamente, em sua lateral direita, enfileiravam-se os latões para a guarda do leite.
    Por detrás de uma elevação, para além do curral, a cachoeira. Num repente, o Rio Turvo despencava do leito, ruidosamente, e voltava à mansidão mais adiante até perder-se numa curva sinuosa.
    Lamento ter sido apenas por onze anos. Quando, em 1954, meu avô vendeu a fazenda, talvez não soubesse quanto significavam para mim aquele pedaço de chão, a casa, o curral, o gado, o pomar, o canavial, o paiol, o ribeirão, o Turvo, a cachoeira, catalogados, desde então, no rol de minhas perdas. Tão nostalgicamente quanto o mugido solitário de um boi no pasto.

 

Wanderlino Teixeira Leite Netto
.